sábado, 17 de outubro de 2015

multiversos


Desde que nasci, a vida passou por mim
estive sempre parado, à espera  dela
e tão parado estive, que nem por ela dei
os anos passaram e por mim os desenganos
os sonhos, outros os sonharam, que não eu
outros fizeram o meu caminho
semearam escombros e esse sinuoso caminho
foi de círculos apertados
intransponíveis e cercados
não foi necessário qualquer movimento
não foi necessário dar um só passo
para ao meu encontro se fechar todo o firmamento.


Ainda olhava o horizonte e adivinhava, para além do mar,
uma paisagem a desabrochar
ainda me passavam lampejos dum desejo, que não sabia
se era real ou visceral. Era um desejo, simplesmente
ou algo assim, que não sei precisar ou definir
era uma imagem de uma outra vida, diferente da que tive
mas como posso saber, se era outra a vida, da vida que tive
se não sei se vida tive?


Olho o céu azul e já não tenho tanto a certeza, ou nenhuma certeza
se o azul do céu é o que sei que é, ou se não é, e me enganei
não deve ser azul, porque a cada momento, muda este sentimento
do que, o que vejo, seja azul
como a cada instante tudo muda à minha volta
tudo é movimento, tudo não, eu sinto-me estático
deve haver um erro de perspectiva, outros me verão móvel
não sei?  também não lhes perguntarei
que sentido faria ter opinião de quem qualquer opinião não teria?
a opinião de outros, a mim pouco me importa
importa-me mais o que realmente sinto
e o que sinto não é nada, um completo vazio
mas depois questiono-me: como pode haver vazio
se o vazio não existe; para haver vazio haveria de ser lindo
cada um, por si, em cada "ilha", todos impossibilitados de comunicarem
entre si; autónomos, eis a palavra própria; mas sem autonomia
por não poderem, qualquer um, ir onde quereriam ou desejariam
confinados ao espaço-tempo a que hoje - e sempre - me encontro


E aqui chegados, volto à partida, donde nunca parti
sem ter partido e sem ter chegado, por dentro de mim
o princípio e o fim; no mesmo ponto, sendo um só ponto
é isso, não passo de um ponto, num universo que não há-de ser único
e nem sei porque hei-de chamar "universo"
pode estar unido ao verso, e estará
mas muitos versos haverá, deveria chamar-se "multiverso"
ele não pode ser único, parecido, sim, mas único?
é pretensioso, ninguém é ´"único", eu não sou único
e posso dizer, que dentro de mim, há multiversos.


Hoje, neste sítio que me calhou, neste círculo tão restrito
penso a vida; penso naquilo que ela me deu e tudo aquilo
que ela me não deu, tudo que ela representa e representou
penso as memórias longínquas, perdidas, já isentas
das emoções que, adivinho, me fizeram viver e que, agora
já para nada servem; tudo se perdeu, ou nunca existiu
nem eu sei se existo ou, se existindo, houve um tempo
e houve um espaço, que por mim foi ou é ocupado.


Pois... a vida não é passado, a vida não é futuro, a vida é presente
sei que ela passou por mim, mas não sei se houve vida fora de mim.


lmc_13_Out_2015

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