terça-feira, 10 de maio de 2016

voos desiguais

voos desiguais

Poisava os cotovelos no parapeito da janela, as mãos em concha sobre o rosto cansado e o olhar perdido na transversal rua.
Só muito lá no fundo, perdidamente, sentia uma leve dor. As calhas de alumínio, da varanda fechada, incomodavam o repouso dos braços.
De resto, nada parecia perturbar aquela tarde. Nem o barulho dos carros, com a poluição a chegar-lhe às narinas, nem os aviões que, nas suas rotas pré-programadas, seguiam destinos inimagináveis, sem nenhuma vontade de a bordo neles seguir, nem a chuva que caía docilmente, cumprindo um ritual necessário à vida.
Só uma coisa lhe prendia a atenção: um voar constante, em circulos rasantes ao prédio, de um casal de andorinhas, brilhantes de negro-azul.
Tinham sido incomodadas pela presença dum intruso, logo por cima do seu ninho.
O homem olhou, pensou, meditou e ficou com uma certeza: toda a beleza estava ali, bem perto de si, um produto da natureza.
Nada melhor na comparção do que a chuva, na sua infinita bondade, pássaros, no seu mais elegante voo, em frente a toda a tecnologia, carregada de poluição.

lmc



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