sábado, 11 de fevereiro de 2017

granizo

Tentei olhar o mundo de fora para dentro e, por mais que essa visão se misturasse na minha obstinada percepção, mais confusa era a minha solidão.

Ao meu lado,  converava-se banalidades culinárias, como quem cozinha passados, na mais pura distração dum qualquer momento de inspiração.


Fechar-me por dentro não foi solução: senti-me um prisioneiro, onde tudo me despertava liberdade.


E a chuva banhava o asfalto, em saraivadas soltas e raras, para minha contemplação.


poderá ser-se livre, como o granizo, no meio da multidão?





segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ser...

ser...

quero o silêncio pelo meio
entre o que foi e há-de ser

quero um outro amanhecer
com um sorriso em teu seio

quero também sentir o vento
e me deslumbrares em marés

e se não for pedir muito, o alento
de seres aquilo que és.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

a última vaga


ao sabor dos ventos
corri os céus 
despertei o mar
criei auroras
no olhar

e na ilha dos amores
poisei no areal dos desejos
onde aguardo a última vaga.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

chuva no olhar

cai a chuva miudinha 
rios de gotas estendidas
na janela da vizinha

e as ilusões perdidas 
espreitam pela vidraça 
ao olhar de quem passa.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Lua

fotoLuísM


pálida esfera espelhada
solitaria 
no eixo duma prisão.

vejo-a como o primeiro 
Homem 
nas cavernas de então.

mas em evolução 
ela vê-nos
em destruição.

domingo, 15 de janeiro de 2017

a dor


Viktor Safonkin _ Mordóvia (Rússia).

hoje o meu despertar foi de dor,
não a minha, mas a que vinha
ao meu encontro, tanta era a saudade no amor.
era tanta essa dor, pressentida no que lia, que não posso imaginar, como se pode suportar tanta dor.

a dor dos outros não a podemos partilhar.
só pela nossa dor a poderemos, um pouco, avaliar.

na nossa dor há mecanismos próprios de defesa que atenuam (ou não) a intensidade e persistência.

é por isso tão difícil calcular o que outros sentem na dor.

a dor dos outros não é a nossa.

a vida também é feita de dor: nasce-se e ela já connosco vem; cresce-se e ela também.

tanta é a dor que o mundo tem:
tanta é a dor no desamor;
na saudade; na maldade; na guerra; na perda, que tem de haver uma compensação,  no equilíbrio dum planeta.

é nisso que acredito.

tanta e tamanha é a dor,
que o mundo tem de ser um grande amor.

a tua dor não é minha
não a posso avaliar
sem amar...
mas a minha
mal a posso sentir.


sábado, 14 de janeiro de 2017